O que sou neste instante?
Sou uma máquina de escrever
fazendo ecoar as teclas secas
na úmida e escura madrugada.
Há muito já não sou gente.
Quiseram que eu fosse um objeto.
Sou um objeto.
Que cria outros objetos
e a máquina cria a nós todos.
Ela exige.
O mecanicismo exige
e exige a minha vida.
Mas eu não obedeço totalmente:
se tenho que ser um objeto,
que seja um objeto que grita.
Há uma coisa dentro de mim que dói.
Ah como dói e como grita pedindo socorro.
Mas faltam lágrimas na máquina que sou.
Sou um objeto sem destino.
Sou um objeto nas mãos de quem?
Tal é o meu destino humano.
O que me salva é meu grito.
Eu protesto em nome do que está dentro do objeto
atrás do atrás do pensamento-sentimento.
Sou um objeto urgente.
(Clarice Lispector)
terça-feira, 18 de agosto de 2009
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