Um cão velho e com olhar cansado estava andando pela rua e entrou em meu jardim. Pude ver, pela coleira e por seu pêlo brilhante, que era bem alimentado e bem cuidado. Ele andou calmamente até mim e eu o agradei.
Então ele me seguiu e entrou em minha casa. Passou pela sala, entrou no corredor, deitou-se em um cantinho e dormiu. Uma hora depois ele foi para a porta e eu o deixei sair. No dia seguinte ele voltou, fez festinha para mim no jardim, entrou em minha casa e novamente dormiu por uma hora no cantinho do corredor.
Isso se repetiu por várias semanas.
Curioso, coloquei um bilhete em sua coleira: “Gostaria de saber quem é o dono deste lindo e amável cachorro, e perguntar se você sabe que ele vem até a minha casa todas as tardes para tirar uma soneca.”
No dia seguinte ele chegou para sua habitual soneca, com um outro bilhete na coleira: “Ele mora em uma casa com 6 crianças, 2 das quais têm menos de 3 anos - provavelmente ele está tentando descansar um pouco. Posso ir com ele amanhã???
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Objeto Urgente
O que sou neste instante?
Sou uma máquina de escrever
fazendo ecoar as teclas secas
na úmida e escura madrugada.
Há muito já não sou gente.
Quiseram que eu fosse um objeto.
Sou um objeto.
Que cria outros objetos
e a máquina cria a nós todos.
Ela exige.
O mecanicismo exige
e exige a minha vida.
Mas eu não obedeço totalmente:
se tenho que ser um objeto,
que seja um objeto que grita.
Há uma coisa dentro de mim que dói.
Ah como dói e como grita pedindo socorro.
Mas faltam lágrimas na máquina que sou.
Sou um objeto sem destino.
Sou um objeto nas mãos de quem?
Tal é o meu destino humano.
O que me salva é meu grito.
Eu protesto em nome do que está dentro do objeto
atrás do atrás do pensamento-sentimento.
Sou um objeto urgente.
(Clarice Lispector)
Sou uma máquina de escrever
fazendo ecoar as teclas secas
na úmida e escura madrugada.
Há muito já não sou gente.
Quiseram que eu fosse um objeto.
Sou um objeto.
Que cria outros objetos
e a máquina cria a nós todos.
Ela exige.
O mecanicismo exige
e exige a minha vida.
Mas eu não obedeço totalmente:
se tenho que ser um objeto,
que seja um objeto que grita.
Há uma coisa dentro de mim que dói.
Ah como dói e como grita pedindo socorro.
Mas faltam lágrimas na máquina que sou.
Sou um objeto sem destino.
Sou um objeto nas mãos de quem?
Tal é o meu destino humano.
O que me salva é meu grito.
Eu protesto em nome do que está dentro do objeto
atrás do atrás do pensamento-sentimento.
Sou um objeto urgente.
(Clarice Lispector)
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